Estou me inscrevendo no Seminário Internacional Fazendo Gênero 7: Gênero e
Preconceitos, que vai se realizar entre os dias 28 e 30 de agosto deste
ano, em Florianópolis/SC, na UFSC. Eis o resumo do trabalho que pretendo
apresentar, cujo título provisório é Anjos Parnasianos e Súcubos
Pré-Modernos:
As imagens idealizadas da mãe e da cortesã são muito recorrentes na poesia. Na obra de Olavo Bilac (1885-1918), poeta parnasiano, a hetaira tem sua beleza e sexualidade celebradas, enquanto a mãe é um anjo diáfano e etéreo. Ja em Augusto dos Anjos (1884-1914), pré-moderno, a mãe é uma figura fisicamente acolhedora e nutridora, enquanto a prostituta é símbolo de degenerescência e decadência humanas. Embora divergentes entre si, as representações de ambos têm em comum o fato de oporem as duas figuras. Com o auxílio do esquema que divide as imagens em regime diurno (que valoriza a etereidade e desvaloriza a carnalidade) e regime noturno (que valoriza o acolhimento e o prazer físicos), do livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, de Gilbert Durand, percebe-se que a ambivalência e a ambigüidade na representação do feminino e da mulher se mantêm em perspectivas discursivas diversas.
Agradeço sugestões e comentários.
Voilà um conto que escrevi há alguns anos. Foi baseado quase fielmente num sonho que tive. “Quase” porque meu inconsciente pode ter reprimido alguma coisa quando o rememorei afterwards. Além disso, o sonho era na primeira pessoa, o conto ficou a terceira. Ei-lo:
UA FÚRIA era imensa. Mas não a descarregava sobre as coisas que havia
ao seu redor, senão sobre a imagem das coisas impressa em suas retinas. Dava
punhaladas, chutes, escancarava a boca como que a gritar, mas sem emitir um som.
Ao seu redor, todos temiam uma grande bagunça vinda de seus movimentos bruscos.
Ele golpeava objetos, vasos, cadeiras, mesas, quadros, mas não os tocava.
Entre aqueles que arregalavam os olhos e cochichavam sobre o extravagante, estava um jovem de cabelos louros e cacheados, a confabular, com um sorriso irônico, ao ouvido de uma moça também loura. Ambos esperavam o trem, sentados em bancos de espera, e o moço visivelmente a flertava. A raiva e as pernas do furioso se dirigiram para o jovem casal, o que assustou o louro e o fez se afastar medrosa e rapidamente. Tão rapidamente quanto o estranho rapaz se sentou ao lado da loura e beijou-lhe a boca, os olhos dela arregalados de surpresa e confusão.
Ele se levantou, e parecia totalmente arrefecida sua paixão. Nenhum músculo seu estava agora tenso ou nervoso. Ouvindo o fraco pranto da moça ao seu lado, sentou-se, exausto, novamente no banco vizinho ao dela. Ela tinha um rosto severo, nariz comprido no vertical mas curto horizontalmente, pele clara mas de tez viva, cabelos chegando aos ombros, olhos castanho-claro e rasos d'água. As lágrimas brilhavam à luz de lâmpadas fluorescentes.
— Você é linda — disse-lhe baixinho. — Muito linda.
Aproximou sua boca da dela e beijaram-se. O sabor do beijo dela era doce como o amor e amargo como a morte. Ao afastarem os lábios um do outro, cuspiu ele as lágrimas dela, que lhe entraram na boca durante o ósculo.
s desenhos, na Idade Média, que representavam os seres da Terra eram
extremamente estilizados, pois não eram feitos segundo técnicas de proporção e
perspectiva, que só viriam a ser retomadas na Renascença, que resgatou valiosas
lições da Antigüidade Clássica. O avanço do conhecimento renascentista
possibilitou observações mais detalhadas da natureza. Essa mudança proporcionou
uma representação mais fiel dos seres humanos, dos animais, das plantas e das
paisagens.
Durante a Renascença, foi possível criar mapas mundi, devido ao desbravamento dos mares. No entanto, os mapas do planeta eram feitos segundo técnicas que não conseguiam figurar com precisão a forma dos continentes e oceanos. Isso só foi possível na era moderna, com o uso de tecnologias mais avançadas. A Astronomia foi de grande ajuda para que se pudesse desenhar um mapa mundi e uma representação do globo mais fiel à realidade. Essa mesma Astronomia e áreas afins de conhecimento e de tecnologia nos permitiram mapear o universo além do planeta Terra.
Hoje, temos mapas da Via Láctea feitos quase exclusivamente através de
observações indiretas e especulações astrofísicas. Com base no raciocínio
depreendido da historieta acima, podemos deduzir que as atuais representações do
cosmo são meros esboços malfeitos da realidade. Talvez, num futuro próximo,
possamos desenvolver meios de observação menos indireta do espaço sideral, e
construir imagens e mapas tridimensionais mais aproximados. Poderemos olhar para
os velhos mapas desta época e, assim como estranhamos as formas caricaturais dos
mapas mundi da Renascença e os desenhos da Idade Média, estranhá-los quando
comparados aos esquemas mais atualizados da Era Espacial.
Fonte das Imagens: Wikimedia Commons
Há uns 2 anos, con ganas de ser dramaturgo, escrevi um prólogo para uma peça que intitulei Missão contra o Graal. Não escrevi nada além do prólogo. Não lembro exatamente do que ela iria se tratar, mas lembro vagamente que era sobre uma conspiração, que se passava na Idade Média, e que começava assim:
Poeta, Sacerdote, General e Filósofo (jogam cartas a uma mesa redonda, numa casa em Roma)
POETA
Rei de copas!
SACERDOTE
Venceste. Dai-me as cartas, que as embaralho.
GENERAL
Cada partida me é uma lição. Parece-me uma guerra em miniatura.
FILÓSOFO
Há qualquer diferença entre uma guerra de homens e outra de
cartas? Não parece que, as proporções distintas, a grande ilusão lúdica seja a
mesma?
SACERDOTE
Falta-lhe uma carta ao baralho. Ainda tens teu Rei de copas em
mão.
POETA
Perdão. A carta me fez pensar em coisas. Fez-me lembrar o Cristo e
seu cálice. Vede que a única carta superior ao Rei é o Ás.
FILÓSOFO
Teria não sido Cristo um pecador? Não vos parece, companheiros,
que, para redimir o pecado de outrem, o redentor deveria conhecer seu
pecado?
Recentemente, comentei aqui na Teia Neuronial
sobre o filme Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles. Disse que é
um épico sem heróis. O filme é predominantemente trágico, embora tenha um final
relativamente feliz. Posso dizer quase a mesma coisa do livro A Cor da Magia, de Terry
Pratchett. É um épico sem heróis. Mas não é trágico, é cômico. Embora,
ironicamente, não tenha um final feliz (relativamente).
A obra é, digamos, legal. Um humor interessante, parecido com o que encontrei na trilogia de cinco livros (dos quais li quatro) de Douglas Adams (O Guia do Mochileiro das Galáxias e as continuações). Satírico, o livro de Pratchett parodia os personagens típicos das histórias de literatura fantástica. Também ironiza mitos antigos e modernos.
Um aspecto que me chamou muita atenção à obra, e que a torna familiar ao estilo de Adams e, segundo minha leitura de um conto de Anton Tchékhov, também a este escritor russo, é a descrição por analogias inusitadas, que buscam, por uma sinestesia exagerada, aproximar ao máximo a coisa descrita da sensação que se teria ao presenciá-la. Um exemplo é quando Pratchett compara um ruído quase imperceptível ao bocejo de um mosquito.
Outra das coisas mais interessantes
é que o autor satiriza a narrativa da literatura fantástica, fazendo, como eu
disse acima, um épico não-heróico (não diria anti-heróico).
Simplesmente, os protagonistas, Rincewind, um mago picareta e covarde, e
Duasflor (Twoflower), um turista fleumático que quer conhecer o mundo e
não se desespera nem quando está à beira da morte (ou melhor, do Morte), num
extremo exemplo de amor fati, se encontram numa grande aventura em que
viajam pelo Discworld, o mundo em que vivem, por puro acaso (ou melhor, por
serem peças de um jogo da mais poderosa deusa do Discworld) e, por uma grande
sorte (quero dizer, com a ajuda da tal deusa), escapam dos mais diversos
perigos. Terem suas vidas manipuladas por uma poderosa deusa é uma forma de
satirizar a onipotência e onisciência dos deuses, ou de Deus, e a
impossibilidade de conciliar livre-arbítrio com a idéia de destino.
Léo Trosco (Mr. T) insinuara que eu estava ficando viciado em Terry Patchett, e eu lhe dissera que ainda não poderia dizer se estava viciado, pois mal havia começado a ler o primeiro livro da série. Pois bem, agora que o li, posso dizer que (ainda) não estou viciado. Infelizmente (!) estou sem tempo para ler os livros seguintes, por causa das leituras do Mestrado. Mas se vocês têm algum tempo para distrair a cabeça, A Cor da Magia é um livro fácil de ler, relaxa os neurônios, proporciona sorrisos e cria novas sinapses para uma visão mais tragicômica e fleumática do mundo. Mirem-se no exemplo de Duasflor!
Fonte das Imagens:Submarino; Art: Josh Kirby
Cadu, um colega do mestrado, falou-me sobre um filme, cujo
título ele não lembrava, onde se passava uma cena em que um funcionário de uma
empresa dizia a sua colega que ele não tentasse ser notada por seus chefes,
pois, para estes, eles, os funcionários, são apenas fantasmas. Outro colega, Gilson, que está na graduação, está escrevendo sua monografia
com o tema da invisibilidade social, que trata exatamente desta questão, da
desumanização de algumas identidades e sujeitos em nossa sociedade.
Lembro de uma ilustração no encarte do álbum The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table, de Rick Wakeman, em que a Távola Redonda, rodeada pelos heróicos cavaleiros, era servida por inúmeros servos. Todos eles tinham no máximo metade da altura dos cavaleiros, e se pareciam mais com anões ou duendes do que com seres humanos. Recordo uma ocasião, no CCHLA da UFRN, em que uma amiga minha, Luciana, disse que ia chamar o “homenzinho” para consertar uma mesa quebrada. A imagem me remete aos duendes caseiros medievais que auxiliavam seus habitantes, realizando tarefas domésticas em troca de comida.
Faz sentido a metáfora do fantasma, ainda mais se pensarmos no animismo,
segundo o qual se crê que as coisas da natureza, como uma montanha ou um rio, têm uma alma ou espírito que o habita. Mais exatamente,
podemos pensar na religião da Roma antiga, em que lar designava não só a casa da
família nuclear, mas também a divindade que a habitava e guardava.
Com o Cristianismo e a demonização de todos os deuses, os espíritos que habitam e guardam um lar, ou seja, que são a alma de um lar, são esquecidos e apagados, reduzindo-se em alguns casos a estatuazinhas de santos. Quando aparecem, são fantasmas em histórias de horror, principalmente nos temas da casa mal-assombrada. Como disse alguém num documentário, “sem o Cristianismo, não haveria heavy metal.”
E da mesma forma os funcionários de uma empresa ou de um prédio ou repartição pública se apagam e perdem a identidade, se tornam parte orgânica do edifício em que trabalham, como duendes esquecidos, e a construção se torna seu túmulo. Como disse Hermes, no filme Orfeu Negro (1959), de Marcel Camus, é no registro mortuário do cartório que os mortos realmente desaparecem.
Fonte das Imagens: Wikimedia Commons
Nestes tempos sem dinheiro para alugar filmes, tenho que me contentar com as atrações da televisão. Na falta de boas emissoras na televisão não-paga, restrito-me a ver AXN, Fox ou Euro Channel. Não vejo nem TNT, que quase só passa filmes dublados. Felizmente, Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, não precisa de dublagem nem leganda. Permiti-me assistir à Globo, que exibiu o filme anteontem (3 de abril de 2006 E.C.).
Sendo um filme muito elogiado, achei que seria uma boa experiência. Foi. Não li o livro. Mas achei o filme muito bem feito, muito bem editado, bom roteiro, personagens convincentes etc. e tal. Bem feito. Falemos do conteúdo.
A história é uma alegoria da construção de impérios, da rivalidade entre nações e da guerra, da sua ascensão e queda. Forma-se uma narrativa de vidas, da infância à adultidade, em alguns casos à morte, e tem-se uma impressão épica. Mas é um épico sem heróis. Os jovens, se podem ser chamados de heróis, é porque não são tão diferentes dos homens e mulheres que na história da humanidade se tornam heróis. Líderes de guerra, que crescem na guerra e pela guerra, pela morte. Todos os heróis de guerra são como Zé Pequeno, como Cenoura e como Mané Galinha.
Mas o mais interessante mesmo é o teatro. A interpretação no cinema brasileiro nunca me agradou. Desta vez, foi de surpreender. Sem deixar de ser teatral, o que é inevitável em cinema, os personagens são viscerais, e até mesmo demonstram uma constância convincente na mudança da infância para a adolescência. O filme é muito real, embora eu não conheça o Rio de Janeiro, a não ser pelo Google Earth, o filme mostra um cenário e pessoas que são reais. Principalmente na humanidade de todos eles, mostrada sem tabus. Quando olho para a realidade, depois de ver a obra, parece que falta alguma coisa nas pessoas, como se seus esforços para mostrar o que são, o que sabem, não fossem suficientes.
Fonte da Imagem: Amazon.com
Finalmente assisti ao filme A Fantástica
Fábrica de Chocolate, de Tim Burton (2005). É uma versão bastante diferente do livro de
Roald Dahl (1964) e da adaptação feita por Mel Stuart (1971).
Burton decidiu intitular seu filme com o mesmo nome do livro, Charlie and the
Chocolate Factory, diferente de Stuart, que o modificou para Willy Wonka
and the Chocolate Factory. A diferença é significativa e assaz estranha,
tendo em vista que na adaptação mais antiga o personagem em destaque é o pequeno
Charlie Bucket (Peter Ostrum), o protagonista, mesmo com a excêntrica e notável
participação de Gene Wilder como Willy Wonka. Já na nova adaptação, o doceiro
Willy Wonka (Johnny Depp) aparece com tanto destaque quanto o que merece um
leading man, deixando o jovem Freddy Highmore apagado na história que
leva o nome do seu personagem.
Bem, a obra não é nada má. O mais notável é a
atmosfera sombria, muito diversa do clima jovial do livro e da alegria colorida
do primeiro filme. Don’t let me be misunderstood, eu gosto de atmosferas
sombrias, como em Batman Returns (de Tim Burton, não por acaso), por
exemplo. Mas é verdade que esse aspecto modificou muito o sentido original da
história.
Agora, ao invés de celebrar a realização dos
sonhos, celebra-se a família. Willy Wonka se tornou um neurótico perturbado pelo
fantasma do pai (para que diabos Tim Burton veio trazer Freud para sua
versão?!), este um dentista que proibia seu filho de comer qualquer tipo de
doce. O doceiro odeia o pai, e se tornou o dono de uma indústria dos doces para
realizar seu sonho, mas precisa que Charlie o ajude a se reconciliar com o velho
Wilbur Wonka e a fazê-lo reconhecer a importância de ter uma família. Muito
piegas. As lições aos pais, que Mel Stuart reproduziu com singeleza nas
musiquinhas dos Oompa Loompas, são agora shows em que as imagens
mirabolantes e os efeitos sonoros ofuscam o conteúdo esclarecedor.
Mas o que mais me intriga nessa história é algo que aparece em todas as versões, mas é mais explícito na de Tim Burton. Há um certo paradoxo entre uma exaltação das guloseimas e uma preocupação em cuidar da saúde. É uma contradição que a história não resolve.
Fonte das Imagens: Submarino
Divisões perigosas
Políticas raciais no Brasil contemporâneo
Peter Fry
Yvonne Maggie
Marcos Chor Maio
Simone Monteiro
Ricardo Ventura Santos
(org.)

Orientalismo
O Oriente como invenção do Ocidente
Edward W. Said

Ethnic groups and boundaries
The social organization of culture difference
Fredrik Barth

Star Wars
IV: Uma nova esperança
George Lucas
V: O Império contra-ataca
Irvin Kershner
VI: O retorno de Jedi
Richard Marquand
(DVD)

Persépolis
Vincent Paronnaud &
Marjane Satrapi
(Windows Media Player)

Mogli
O menino lobo
Wolfgang Reitherman
(Disney Channel)

10.000 A.C.
Roland Emmerich
(Cinemark)

Snoopy 1
E sua turma
Charles M. Schulz
As tiras clássicas da turma da Mônica
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