Você é um caramujo. A superfície da lagoa baixa um pouco mais a cada dia, enquanto o horizonte sobe. A água fica cada vez mais barrenta.
Você está tocando a lama agora. Enterra-se no barro que vai ficando mais duro. Está seguro, abraçado pela terra úmida. Dorme.

Você acorda envolto em lama. Muito tempo se passou desde que adormeceu. A lama se desfaz em água. Avista o horizonte descer cada vez mais e o mundo volta a ser a cristalina superfície ampla rodeada de grama verde e cajueiros frondosos.
Manoel Batista, conhecido também como Irmão Manoel, pois é pastor evangélico na comunidade quilombola de Capoeiras, município de Macaíba (RN), me disse que, enterrados no fundo da lagoa seca, no meio do território da comunidade, há caramujos, “como se estivessem mortos”, que voltam à vida quando a lagoa enche de novo.
Você é um caramujo numa lagoa, e só você pode enchê-la.
Recentemente, o governo concluiu o processo de demarcação das terras indígenas Trombetas-Mapuera, na Região Norte, abrangendo parte do Pará, do Amazonas e de Roraima. Na cerimônia, o presidente da Funai, Márcio Meira, disse aos indígenas:
Vocês não podem esquecer as músicas, as danças, as flautas, os artesanatos, Não podem esquecer dos antepassados e da língua. Os mais novos têm que escutar os mais velhos. Têm que manter a tradição e conhecimento antigo. Têm que manter firme a memória dos povos. É isso que garante que vocês tenham a terra.
Johann Gottfried Herder, no século XVIII, já demonstrava preocupação com a manutenção do “patrimônio cultural” dos “povos”. Até hoje ainda é corrente no senso comum a idéia de que existem “povos” distintos, cada um com sua natureza particular, que se mantém intocada, mesmo que ocorram mudanças significativas na organização das sociedades, e que precisa ser preservada a todo custo.
Vejo um grande problema ao se colocar o foco da questão da necessidade de terra desses “povos” na urgência de se preservar um “patrimônio cultural”. Se olharmos do ponto de vista dos que demandam terra (e tenho experiência com comunidades rurais negras, chamadas hoje em dia de quilombolas, que passam por problemas territoriais muito semelhantes aos dos indígenas), é uma questão de sobrevivência dos indivíduos e do grupo enquanto seres vivos, seres humanos, muito mais um problema sócio-econômico do que “cultural”. Da forma como o presidente da Funai (e os governantes em geral) coloca, é como se estivéssemos preservando o exotismo de espécies em extinção, pela beleza e por motivos “politicamente corretos”.
Mas a Antropologia, a Sociologia e a História têm demonstrado há tempos que os “povos” surgem e somem, se misturam uns com os outros, se transformam, e não há uma essência a ser preservada. Esse é o tema do livro O mito das nações, de Patrick J. Geary, sendo seu objeto de estudo os povos da Europa.
Não me entendam mal. Não sou contra as manifestações culturais dos diversos povos existentes mundo afora, não sou contra uma predisposição a apreciar as produções musicais, pictográficas, coreográficas e tecnológicas diferentes da massificada “cultura ocidental”. Mas se temos que assumir políticas voltadas à assistência de populações carentes, elas devem ser feitas sem romantismos bobos. Todo contato entre “povos” gera mudanças em todos os envolvidos, e seria pior se assim não fosse.
Persépolis era a capital do antigo Império Persa, e se localizava onde atualmente é o Irã. É neste país que se inicia a história de Marjane Satrapi, roteirista e ilustradora de Persépolis, sua autobiografia em quadrinhos, escrita originalmente em francês.
Visualmente, tratam-se de desenhos de traços simples, feitos somente da cor preta sobre o papel branco. Não há detalhes no desenho, a não ser aqueles invisíveis, evidenciados por uma sutil sensibilidade e por sugestões do texto, bem coloquial.
Satrapi nasceu em 1968, e a menina iraniana presenciou grandes transformações em seu país. Sua relação infantil com Deus e com as idéias liberais de seus pais são retratadas do ponto de vista fantasioso da criança. A Marji adolescente curte a cultura pop ocidental sem que o regime fundamentalista saiba.
Quase todos os iranianos têm uma vida secreta diferente daquela veiculada pelo estereótipo que o próprio Irã exporta, e a vida da jovem mulher iraniana na Europa cria situações instigantes em que sua nacionalidade e a ânsia por afeto, seus tabus e seu espírito libertário, sua indeoendência e a saudade dos pais levam a narrativa para angústias, descoberas e reviravoltas. A linha narrativa dá uma volta dramática, retornando ao ponto inicial e depois seguindo serenamente numa direção ascendente.
Meus comentários só vão até aqui. É uma obra que deve ser apreciada no silêncio da leitura, da introspecção e da auto-reflexão (ao menos foi assim que a apreciei). E talvez ser discutida com amigos que a tenham lido também. Vale a pena ver e ler, saber também que foi adaptada para o cinema e ver o trailer abaixo.
Homens e mulheres, divirtam-se:
m pequeno grupo de membros de uma comunidade litorânea, localizada em uma das regiões mais pobres do país e ao mesmo tempo mais promissoras em termos de turismo, resolve demandar do Estado um direito previsto em um artigo da Constituição Federal. Este artigo permite que a comunidade receba de volta as terras que perderam ao longo de sua história e recuperem sua sustentabilidade e autonomia.
Bem, a vida não é fácil em S., e o alto valor da terra faz com que alguns membros da comunidade prefiram deixar as atividades agrícolas e pesqueiras praticadas por seus pais e avós para se dedicar à especulação imobiliária. Mas são poucos os que possuem o traquejo para se dar bem nesse tipo de negócio. D., um dos líderes comunitários, está entre os que têm essa habilidade, e ele quer que o poder sobre a terra retorne às mãos dos seus.
Entretanto, grandes proprietários de terra, entre os quais estrangeiros muito ricos, temem ver seus planos de grandes empreendimentos imobiliários irem por água abaixo ao saberem do que pretende a comunidade. Sem delongas, procuram a amizade dos líderes da comunidade e lhes dão presentes muito valiosos. Prometem-lhes cargos de gerência nos hotéis que pretendem construir. Anunciam-lhes um futuro de progresso e desenvolvimento para S., com a vinda de turistas endinheirados.
A vida não é fácil em S. Algumas pessoas começam a mudar de idéia sobre a demanda que fizeram ao Estado. Outras ficam confusas com o que está acontecendo. E há aqueles que se revoltam com o que estão presenciando e provocam uma dissidência. Mas os proprietários ricos vão aos poucos silenciando estes dissidentes com um bom dinheiro, e em breve não há mais uma voz forte na comunidade para levar adiante o projeto inicial.
O Estado já não sabe o que quer a comunidade, pois seus porta-vozes monopolizam a comunicação entre esta e o serviço público. O clientelismo entre os ricos proprietários e os líderes comunitários dão a estes um poder maior dentro da comunidade, e eles passam a incutir nesta a idéia de que o desenvolvimento dos empreendimentos imobiliários lhes trará melhores condições de vida do que se conseguissem seu território de volta para viver de agricultura e pesca.
Será que D. e seus companheiros têm razão sobre o desenvolvimento turístico? Eles terão chance de emprego com os empreendimentos - ou conseguirão apenas subempregos? Aqueles poucos que ainda querem a regularização fundiária prometida pelo Estado têm razão ao querer retomar as atividades econômicas tradicionais? Por que esta comunidade não recebe os benefícios que o Estado promete às comunidades deste tipo, como cestas básicas, benefícios à educação e projetos de melhoria de vida? Haverá alguém querendo se aproveitar do pouco caso das autoridades locais para dificultar ainda mais o projeto inicial?
Essa é só uma pequena parte resumida da história toda. Daria um grande livro ou um filme espetacular. A vida real traz muito boas idéias para as narrativas literárias.
Divisões perigosas
Políticas raciais no Brasil contemporâneo
Peter Fry
Yvonne Maggie
Marcos Chor Maio
Simone Monteiro
Ricardo Ventura Santos
(org.)

Orientalismo
O Oriente como invenção do Ocidente
Edward W. Said

Ethnic groups and boundaries
The social organization of culture difference
Fredrik Barth

Star Wars
IV: Uma nova esperança
George Lucas
V: O Império contra-ataca
Irvin Kershner
VI: O retorno de Jedi
Richard Marquand
(DVD)

Persépolis
Vincent Paronnaud &
Marjane Satrapi
(Windows Media Player)

Mogli
O menino lobo
Wolfgang Reitherman
(Disney Channel)

10.000 A.C.
Roland Emmerich
(Cinemark)

Snoopy 1
E sua turma
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As tiras clássicas da turma da Mônica
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