[...] uma das deficiências da proposta de cotas é exatamente a de que ela incide sobre uma das conseqüências da discriminação racial e da desigualdade educacional sem que estas, em si mesmas, sejam corrigidas. A solução das cotas não se encaminha no sentido de propor uma ação afirmativa que permita aos brasileiros com ascendência africana superar deficiências do seu processo de escolarização e o estigma da discriminação, mas a de reivindicar que, para os “negros”, os critérios de admissão sejam menos rigorosos. (José Goldemberg & Eunice R. Durham)

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Fora de foco

ou Tem fogo? Espero que não…

Não me gusta o cheiro de fumaça de cigarro. Annoys me muito o hálito de fumante. Não consigo disfarçar e ao mesmo tempo me incomoda saber que alguém pode se sentir ofendido se eu demonstrar que não estou incomodado. O melhor, na maioria dos casos, é me afastar do focus.

Uma colega do trabalho me disse que sempre teve nojo de tocar num maço de cigarros embalado. Eu então me dei conta de que também tenho essa aversão, mais amena, no entanto. Tenho medo de ficar com os dedos fedendo. Coisa da mente; tenho um colega de trabalho que não come ovo de codorna por causa das manchinhas pretas que há na casca.

Provei cigarro uma vez, na adolescência, e nunca mais fumei, a não ser passivamente. Num de meus últimos aniversários, um amigo, que na época era fumante assíduo, me deu um cigarro, presente nada amigo. Tive que jogar no lixo. Já a maconha eu provei com mais de vinte anos, mas foi só para não dizer que nunca provei. É como se nunca tivesse provado.

Escrevi há tempos um post sobre uma aula que tive na universidade, da disciplina “Corpo, Natureza e Cultura”, em que a professora mandou desligar o ar condicionado e abrir as janelas para acender seu cigarro. Uma professora de inglês certa vez disse que um fumante incomoda menos do que um bêbado. Claro que quando ela queria acender seu cigarro sempre se afastava, para não incomodar ninguém com a fumaça. Então percebi que os fumantes, nessas ocasiões, se desligam do contato humano, o que é chato. E há muitos bêbados que não incomodam, pois isso depende da reação de cada um ao álcool.

Por falar em fumaça, é difícil acreditar que um presidente possa ter dito isso:

Não é a poluição que prejudica o meio ambiente. São as impurezas do nosso ar que estão fazendo isso.

Nós temos Lula. Os norte-americanos têm esse aí.

Tecido por volta de 21:46:46

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Entre raças e espécies

ou Chimpanzés são morenos e orangotangos são ruivos

Sabemos que chimpanzés (Pan troglodytes), gorilas (Gorilla gorilla) e orangotangos (Pongo pygmaeus) são espécies distintas, que não convivem entre si nem se inter-reproduzem. Não possuem entre si sequer uma relação de simbiose. Mas Pierre Boulle pôs as três espécies num mesmo planeta, formando uma só sociedade. Franklin J. Schaffner adaptou La Planète des Singes (que ainda vou ler) para o cinema, com Planet of the Apes (1968), onde vemos gorilas formando uma casta de soldados e policiais, os chimpanzés atuando como cientistas e os orangotangos como dirigentes da sociedade “símia”.

O ser humano assume aí o papel de animal irracional e de antepassado dos macacos. Eles são, para a crença símia, demônios que precisam ser controlados, como dizem suas sagradas escrituras:

Beware the beast Man, for he is the Devil's pawn. Alone among God's primates, he kills for sport or lust or greed. Yea, he will murder his brother to possess his brother’s land. Let him not breed in great numbers, for he will make a desert of his home and yours. Shun him; drive him back into his jungle lair, for he is the harbinger of death.

Ou seja:

Cuidado com a besta Homem, pois ele é o peão do Diabo. Só ele entre os primatas de Deus mata por esporte ou luxo ou ganância. Sim, ele assassinará seu irmão para possuir a terra de seu irmão. Não o deixes proliferar em grande número, pois ele transformará num deserto o seu lar e o teu também. Enxota-o; leva-o de volta à sua toca na selva, pois ele é o presságio da morte.

O cenário em que vivem os símios sugere, de certa forma, que é característica do ser humano não conseguir conviver com outras espécies que tenham a mesma capacidade psíquica que ele. Não consegue sequer viver em paz com os de sua própria espécie. O Homo sapiens inventa raças para justificar diferenças, desigualdades e guerras.

Se, por um lado, os símios conseguem criar a convivência entre três espécies diferentes, o que denotaria uma virtude comparando-os com os humanos, por outro lado, eles só o fazem às custas da hierarquização dessas espécies, ao modo dos humanos, que essencializam diferenças “raciais” ou étnicas, ligando-as a papéis e a personalidades fixos.

Ainda por um terceiro lado, podemos interpretar a convivência de três espécies numa mesma sociedade como um reflexo de nossa própria forma de interpretar as diferenças entre os seres humanos, ou seja, de forma naturalizante. É o que acontece em outros cenários de fantasia e ficção científica, como a Terra-Média de Tolkien, onde Homens, Elfos, Anões e Hobbits têm cada um sua cultura, como se fossem uma alegoria das “raças” humanas.

Isso fica evidente também no Planet of the Apes (2001) de Tim Burton, em que o senador Nado, um velho orangotango, mantém uma relação com a jovem chimpanzé Nova, como se eles estivessem rompendo algum tipo de tabu racial. Mas, pensem bem, a relação entre Nado e Nova não é fértil, enquanto uma relação entre um homem negro e uma mulher branca é perfeitamente fecunda (salvo uma situação extraordinária de esterilidade) e produz um (ou mais) Homo sapiens normal (até mais saudável do que o normal, segundo algumas teorias da miscigenação).

É comum, especialmente nas histórias contadas e recontadas por estadunidenses, que se mantenham as representações racistas que separam “brancos”, “negros”, “índios”, como se fossem psíquica e biologicamente incompatíveis. Vejam Dances with Wolves (1990), de Kevin Costner, em que o tentente Dunbar, passando a viver entre os da tribo Sioux, poderia se envolver com uma nativa, mas o telespectador se emociona, quase com alívio, ao ver uma mulher “branca” aculturada entre os Sioux, que nunca arranjou marido, mas que rapidamente se envolve com o protagonista, como se fosse seu destino (já que são da mesma “raça”).

No filme Star Trek: First Contact (1996), o capitão Jean-Luc Picard, “caucasiano”, parece flertar, muito sutilmente, com Lily, “afro-americana”. Mas eles se tornam grandes amigos (isso é o máximo que pode acontecer, nesses contextos, entre um “negro” e um “branco”). Também em The Bone Collector (1999), não faltou nada para que o par de protagonistas tivesse um relacionamento. Só faltou reconhecerem que, embora tenham distintas cores de pele, pertencem à mesma raça humana.

No cinema brasileiro não há esse pudor todo. Não é possível negar que as relações entre as pessoas de grupos sociais meio e pouco favorecidos muitas vezes não conhece distinções raciais ou, se as reconhece, não impõe tamanhas barreiras contra a mistura. Mas ainda é muito presente entre nós a idéia de que o ser humano é branco e as outras variações são exceções à regra (ou até menos humanos).


Gostaria muito que conferissem este link.

Tecido por volta de 21:25:43

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